quarta-feira, 13 de julho de 2011

Soneto da Desventura

Quando o grande pecado é justiça

Quando o grande erro é o nós

Quando a grande resposta é inexorabilidade da natureza humana

Desventura


Quando a frieza do vil metal

queima as retinas

asfixia o peito

Desventura


Quando canto vira súplica

Quando direito vira benefício

Desventura


Quando há o encontro

Enquanto houver esperança

Aventura



Ele

domingo, 26 de junho de 2011

"O mundo não é, ele está sendo"

Ás vezes parece que você é o único chato que não se conforma com o estado atual das coisas e com o curso que elas têm tomado. Chega a dar um desânimo com a desmedida reprodução de certas idéias sem embasamento, fazendo crer que nunca o senso comum foi tão comum e ignorante.

Mas eis que surgem as manifestações, algumas muito, muito pequenas, mas ainda assim, são mais uma dose de ânimo. Sim, Paulo Freire, "o mundo não é, ele está sendo". Nada está perdido e nós não estamos sozinhos. Jamais estaremos.

Hasta la victoria.


P.S. Para descontrair sem desconcentrar.



Ela

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Aprovação do novo Código Florestal e Žižek no Brasil

A última semana, de 22 a 28 de maio, foi deveras conturbada. Inúmeros acontecimentos espalhados pelo mundo inteiro invadiram os noticiários, principalmente através das redes sociais. Diante da opressão do Estado burguês a manifestação de trabalhadores em Barcelona, o assassinato de militantes camponeses em Rondônia e no Rio de Janeiro, a aprovação do novo Código Florestal na Câmara dos Deputados e a palestra do filósofo marxista Slavoj Žižek, me deixando desnorteado sem saber decifrar a enxurrada de idéias, revolta e tristeza que tomam conta dos meus pensamentos.

Como um boxer que se recupera de um duro golpe, tento organizar neste texto ao menos parte desta confusão mental, visto que todos os acontecimentos de uma maneira ou de outra encontram-se interligados, não custa lembrar mais uma vez que Marx nos alertou para a importância da totalidade, não vou aqui atribuir um valor exagerado ao acontecimento a ou b, pelo contrário, vou fazer uma breve análise apenas de um dos fatos mencionado a luz das idéias que recentemente me conquistaram desse eslavo Žižek.

Escolhi a aprovação do Novo Código Florestal por um simples motivo, ainda não havíamos discutido a temática neste blog. Já a escolha das idéias do intelectual eslavo para fazer a intermediação com o tema são ainda mais óbvias, todas presentes na sua palestra no último dia 24 de maio no Rio de Janeiro, na qual fui um atento e surpreso ouvinte.

Sem nenhuma surpresa (ainda mais com a implosão de escândalos envolvendo o governo, no caso do ministro Palocci), entretanto com muita tristeza e revolta que tomei conhecimento da vitória esmagadora do novo Código Florestal na Câmara dos Deputados (410 votos a favor e apenas 63 contra). Mas não vou aqui tratar de desmesuras políticas e morais dos nossos deputados, isso a nossa imprensa faz com propriedade. Quero dar alguns passos para traz e vislumbrar a problemática a partir de uma perspectiva mais ampla fazendo a seguinte questão: qual é a relação da aprovação do novo código e a crise ambiental na qual nos vivemos?

Para alguns pode até ser surpreendente a aprovação de um código que amplia as áreas de desmatamento na Amazônia, que padroniza a 15 metros a faixa de proteção de matas ciliares (matas ao longo dos cursos de rios) tanto para rios caudalosos como o Amazonas quanto para pequenos riachos e córregos, que regulamenta o cultivo em encostas e topos de morros e que anistia desmatadores, em um momento de crise ambiental no qual a nota principal é criar alternativas para tudo acima mencionado. Para mim parece muito óbvio. O modo de produção capitalista não vê limites para saciar sua fome de lucratividade, o metabolismo destruidor do capital, na sua essência, não encara a natureza como um fim, pelo contrário, considera um recurso a ser explorado ou reservado para futura valorização e exploração.

É nesse sentido que Zizek passa a acompanhar o nosso raciocínio, não podemos pensar que o senhor Eike Batista, 8º homem mais rico do mundo, dono de mineradoras e petroleiras pode pensar em limite para suas atividades, uma utilização “racional” destes recursos é igual a uma menor lucratividade. Ou pensar catástrofes ambientais como a ocorrida no Golfo do México como uma questão de irresponsabilidade da British Petroleum, como se a questão fosse moral da “boa” ou “má” companhia, da ambientalmente responsável ou a inescrupulosa e irracional. A questão é muito clara, para os dois casos, vivemos um modo de produção de nos impele a sugar ao máximo os recursos, ir até os limites impostos pela técnica para manter e aumentar as taxas de lucro das grandes companhias e as conseqüências são meros detalhes.

Detalhes, entretanto, bem inconvenientes, mas é ai que entra a ideologia dominante. Para desconstruí-la vou recorrer mais uma vez a Zizek, que nos diz que a ecologia é um problema não pelo que é dito (catástrofes, aquecimento global, etc), mas sim pelo que não é dito, ou seja, de que forma o discurso ambiental é utilizado como uma ferramenta política (ideologia). Em primeiro lugar, essa idéia de que o HOMEM está acabando com o equilíbrio presente na natureza e que precisamos restabelecê-lo é completamente irracional. A natureza não está em equilíbrio, ela é dinâmica, compreendida a partir de processos de destruição e construção (visto o tsunami no Japão). Essa visão irreal só nos afasta dos verdadeiros problemas, como é o caso de alguns movimentos ambientalistas que não tem compromisso nenhum com a transformação da sociedade.

Em segundo lugar, essa espécie de ambientalismo individual do “cada um faz a sua parte” separando o lixo para a reciclagem, usando “ecobag” e comprando alimentos orgânicos para salvar a natureza. Não que essas atitudes não sejam importantes, mas será que acreditamos mesmo que isso vai realmente mudar alguma coisa? Zizek afirma que funciona como ideologia, como por exemplo, quando assistimos a um jogo de futebol na televisão e esbravejamos com os jogadores, orientamos o time e ofendemos o juiz, sabemos que não podemos influenciar em nada na partida, mas queremos acreditar que sim. É o que acontece com as iniciativas individuais de “consumo consciente”, que sabemos que dificilmente mudaríamos algo, até porque os carros continuam nas ruas, a agricultura vive a base de petróleo (máquinas e insumos – NPK) e agrotóxicos, as indústrias metabolizam combustíveis fósseis, mas tais medidas nos fazem sentirmo-nos melhor, afinal, “estamos fazendo a nossa parte” mesmo que isso nunca vá efetivamente resolver o problema.

São nesses termos que encaro a aprovação do Novo Código Florestal, que sob o discurso de um uso sustentável, da geração de empregos e do desenvolvimento da nação, quebra-se mais uma barreira para o avanço do capital em nosso território. As grandes multinacionais, ruralistas e a burguesia em geral comemoram mais um passo rumo ao “uso sustentável que garanta o desenvolvimento de nosso país”. Sendo assim, em termos ambientais, o novo código nos remete ao título da palestra de Slavoj Žižek no Brasil: “a situação é catastrófica, mas não é grave”.


Ele

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Carta aos Nossos Primeiros Heróis

Tem dias em que nos deprimimos, cientes da nossa voz em minoria, da nossa desarticulação enquanto grupo, da clareza dos nossos temores. Mas incrivelmente, com uma força que só a sensibilidade é capaz de oferecer, a tristeza se supera no pontinho de esperança que ganha um brilho incalculável na mente resolvida em ideologia e vira combustível para a luta. E não importa que nosso sangue tenha sido alimentado durante anos pela direita, quando ele amadureceu se fez livre e oxigenou nossos cérebros com compaixão, inteligência e coragem em praticar ambas. E a tendência, embora muitos terão o prazer de contestar, será o engrandecer, realizar e propagar desses valores.

Netos, filhos do discurso reacionário e fascista, em nossa adolescência encontramos portas abertas para o amor ao próximo e os alicerces para o conhecimento teórico que nos tornariam críticos da realidade e é isso que queremos que nossos filhos herdem. Mais do que olhos, cabelos e traços, mais do que habilidades e gosto para as artes, queremos que eles sejam sensíveis e críticos o que, sendo apenas o mais valioso, não há de constar em testamento.

E é por isso que consiguimos imaginar a dor daqueles que cederam genes para a nossa formação em constatar a desvinculação das nossas ideias das suas próprias, já que é um medo que nos assombra também. Mas podemos garantir que à grande parte disso lhes cabe a culpa, por nos terem tanto recheado o peito de amor que o único destino que nos coube foi o de expandí-lo para os outros seres humanos. Se somos quem somos, se nosso projeto de vida vai além de nós mesmos, também devemos isso a vocês, para seu desgosto e nosso orgulho.

Para além da divisão ideológica, seremos pra sempre sangue dos seus, amor que nasceu e floresceu a partir dos seus corações, mas terão de aceitar que enquanto houver direita, a esquerda integraremos, enquanto existir desigualdade e intolerância, haverá luta e enquanto esta existir, nela estaremos e morreremos.




Sangue do meu sangue, o sangue que hoje corre em minhas veias é uma variação do seu, mas as ideias que interligam minha mente e coração se desconectaram de você e encontraram paz na luta pelo próximo, sem levar contudo, o meu amor de menina.

O primeiro herói, a gente nunca esquece.

Ela

terça-feira, 26 de abril de 2011

Um Sorriso Nos Lábios

Hoje a crítica fica por conta do artista.


Um Sorriso Nos Lábios

Composição: Gonzaguinha

Vidro moído ou areia
No café da manhã
E um sorriso nos lábios
Ensopadinho de pedra
No almoço e jantar
E um sorriso nos lábios
O sangue, o roubo, a morte
Um negro em cada jornal
E um sorriso nos lábios
Noventa e cinco sorrisos
Suando na condução
E um sorriso nos lábios...

Mas sonha que passa
Ou toma cachaça
Agüenta firme, irmão
Na oração
Deus tudo vê e Deus dará
Ou então acha graça
É tão pouca a desgraça
Mas no fim do mês
Lembra de pagar a prestação

Desse sorriso nos lábios, é
Desse sorriso nos lábios, pois é
Desse sorriso nos lábios...

O jogo, a nêga, a loteca
A fome e o futebol
E um sorriso nos lábios
A taça, a vida, a dureza
Viva a beleza do sol
E um sorriso nos lábios
Os olhos fundos sem sono
Os corpos como lençol
E um sorriso nos lábios
O cerco, a vida, o circo
Silêncio, um medo anormal
E um sorriso nos lábios

Mas sonha que passa
Ou toma cachaça
Agüenta firme, irmão
Na oração
Deus tudo vê e Deus dará
Ou então acha graça
É tão pouca a desgraçaas no fim do mês
Lembra de pagar a prestação

Desse sorriso nos lábios, é
Desse sorriso nos lábios, pois é
Desse sorriso nos lábios...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Uma Insurreição às Escuras

Nos últimos dias estamos sendo bombardeados com efusivas notícias acerca do grandioso movimento popular que vem se arquitetando no Egito para depor o então presidente e ditador Hosni Mubarak. Todo esse movimento midiático desenvolveu em mim uma larga desconfiança sobre os verdadeiros fins de tal processo histórico. Parafraseando o excelente título do filme documentário “A Revolução não será televisionada” dos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain, suspeito seriamente de qualquer apoio dado pela imprensa e da pseudo “comunidade internacional” ao movimento popular. Meu ceticismo acerca dos resultados e benefícios à população da insurreição deposicionista foram parcialmente confirmados quando pela manhã deparo-me com a seguinte notícia no sitio do globo.com, um veículo de idoneidade inquestionável (para os que não me conhecem, deixo explicito o meu tom sarcástico!):



A fim de compreender melhor essa janela histórica que se descortina sob os nossos olhos recorro a um clássico autor marxista, Leon Trotsky. O autor da teoria da revolução permanente, em um livro homônimo, oferece-nos um arcabouço teórico que permite compreender tal processo histórico com outros olhos. Com todas as limitações que este veículo me impõe, arrisco-me a uma humilde análise de um fragmento do ideário trotskista acerca da união revolucionária entre camponeses, proletários e a pequena burguesia.

“Mas, esse fato essencial se realizou, também, em todas as revoluções vitoriosas ou semivitoriosas, sem exceção. Sempre por toda a parte, os proletários ou seus precursores, os plebeus e os camponeses, derrocaram os imperadores, os senhores feudais e os padres (...). Mas o que tem haver com isso a ditadura democrática? As antigas revoluções não a conheceram (...). Por quê? Porque a burguesia ia montada às costas dos operários e dos camponeses que faziam o trabalho ingrato da revolução.” (TROTSKY, 2007, p.124)


Esse breve trecho da obra de Trotsky deixa no ar uma pergunta fundamental para qualquer movimento de transformação na sociedade: quem dirige e quem toma o poder efetivamente? Não é difícil estabelecer uma relação entre as palavras do autor e os atuais acontecimentos no Egito. A população oprimida (esmagadora maioria da sociedade) é a única força política capaz de romper o curso da história, sem de forma alguma ignorar este fato, a minoria opressora, inteligentemente, utiliza a energia revolucionária popular para seguir delineando os meandros da história. Um exemplo? É fácil, 14 milhões de pessoas nas ruas dia a pós dia, semana após semana sob os olhares de aprovação das nações imperialistas (não vamos esquecer que Inglaterra, França, EUA sugaram e sugam com uma sede insaciável o suor dos trabalhadores egípcios) derrubaram um governo que cometeu o grave erro de se opor a quem o mantinha no poder. Quando esse mesmo movimento começa a ter uma iniciativa verdadeiramente progressista e autônoma de reivindicação por melhores salários e condições de trabalho, o novo governo que fora alçado ao poder por essas mesmas forças populares, mostra a sua verdadeira face. Mudam-se os atores, mas o enredo é o mesmo!


É o fim? Muito pelo contrário, mais uma vez as classes oprimidas demonstram a sua força. É uma injeção de adrenalina em nossos ideais de transformação da sociedade. O que temos que nos perguntar agora é quem está com as rédeas dessa carruagem revolucionária e como podemos tomá-la.


O processo histórico no Egito ainda não está terminado, aguardo ansiosamente as cenas dos próximos capítulos!



Ele

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mais-valia é ultrapassado?


Embora esse instrumento de comunicação não permita o embasamento teórico necessário, sinto-me um tanto quanto instigado a mergulhar na aventura de demonstrar como o conceito de mais-valia ainda é de grande valor elucidativo para compreensão da realidade. Vou recorrer a uma metáfora para facilitar a minha retórica.

O Senhor Eka Bartolomeu, um dos empresários mais ricos do país, investiu 6 milhões de dólares na construção de plataformas para a exploração de petróleo na Bacia de Campinho, uma das maiores reservas petrolíferas do país. José Paulo de Oliveira Costa é técnico em exploração de petróleo em águas profundas e trabalha para o senhor Eka. José é responsável pela operacionalização das máquinas na plataforma e graças ao seu trabalho e dos seu 20 outros companheiros, a produção chega a 60 barris de petróleo ao dia, sendo vendidos a 80 dólares cada no mercado internacional. Se dividirmos os 60 barris produzidos pelo número funcionários teremos 3 barris para cada um,ou seja, 240 dólare
s por trabalhador. Entretanto, cada funcionário ganha no máximo 40 dólares diários, aonde foi parar o restante do dinheiro? No bolso do senhor Eka.

Em outras palavras, o capitalista investe nos meios de produção D, com o intermédio do trabalho o dinheiro investido é transformado em mercadoria M e é vendida D’ (D-M-D’). Entretanto, o trabalhador elemento fundamental para transformação da mercadoria (geração de valor), é desapropriado de parte do seu trabalho pelo capitalista que fica com a maior parte da renda gerada.

Mas o que quero discutir aqui não está presente na charge, nem nos noticiários e crônicas dos principais jornais em circulação e, infelizmente, também está fora da maior parte das aulas de Geografia, História e Sociologia. Fatores como a internacionalização e financeirização da economia, a explosão do setor de serviços e o absurdo desenvolvimento das forças produtivas no campo e nas cidades (robótica, microeletrônica, informática, biotecnologia etc) parecem ter caducado o conceito de mais valia, principalmente, com a força do capital especulativo nas bolsas de valores, na qual o capital gera mais capital sem necessariamente haver a intermediação do trabalho, é dinheiro gerando dinheiro! Aonde fica o trabalho nesse esquema? Não existe mais a mais-valia?

A exploração do trabalho não acabou, pelo contrário, nos últimos anos estamos passando por um período de precarização cada vez maior das relações de trabalho, perda de direitos trabalhistas (vide a reforma previdenciária na França), arrochos salariais, terceirização, etc. Temos hoje uma mais valia globalizada, na qual as grandes empresas transnacionais por intermédio das novas tecnologias de comunicação e transporte são capazes de explorar a mão-de-obra em várias partes do mundo ao mesmo tempo. Elas se deslocam para os lugares com maiores vantagens, salários mais baixos e poucos impostos, a fim de lucrar cada vez mais. Vocês acham que um funcionário da Volkswagen na Alemanha ganha a mesma coisa que no Brasil? Claro que não! Somos nós subdesenvolvidos que sustentamos o desenvolvimento alheio é a exploração da mais-valia globalizada que banca o bem-estar social europeu.

Outro exemplo bem claro de exploração de mais-valia está no cotidiano da maior parte de nós. Quem nunca levou trabalho para casa ou ficou até mais tarde no escritório sem receber um real por isso? E quem trabalha sob regime de metas e chega no final do mês trabalhando nos fins de semanas para cumpri-las? Já pararam para pensar quem está ganhando com o seu esforço? Isso é trabalho não pago galera, é mais-valia!!!

Não se iludam com discursos de pagamento por produtividade, bônus por resultados em testes (como é o caso do ensino público em São Paulo), estas práticas são eufemismo para precarização e superexploração do trabalho!!! Quem ganha por produtividade ou metas é obrigado a trabalhar incessantemente para alcançá-las, quem ganha bônus por desempenho está aceitando uma política inteiramente perversa, pois quem dita o que e como se deve ser premiado não somos nós!!!

Nem de perto esgotei esse debate, só espero com ele, aguçar a curiosidade de todos nós para essa temática e incentivar ação transformadora da nossa realidade!


Ele