quarta-feira, 7 de abril de 2010

6/04/2010. Caos no Rio? Caos no mundo.


Chuva intensa no Rio de Janeiro, ruas alagadas, tráfego parado, serviços, aulas e trabalhos suspensos, desabamentos, lixo, ruas completamente vazias, mortos, caos.

Esse foi o cenário de ontem, terça-feira, dia 6 de abril de 2010, o dia em que a cidade maravilhosa parou e assistiu horas e mais horas de noticiários sobre destruição, isso quando não estava no meio dela e é nesse cenário caótico que se vê florescer grande parte da generosidade e da solidariedade humana. Em comunidades mais carentes onde os desabamentos se fizeram freqüentes, a população se juntou para dar abrigo, comida, resgatar soterrados, mesmo com pouquíssimos recursos.

O curioso que pude perceber é que esse tipo de comportamento não foi uma regra em lugares onde o risco de morte não estava em jogo, como se a solidariedade não fosse importante em todos os momentos do dia e a todos que precisarem de algum tipo de socorro. Digo isso por que um momento simples do meu dia a dia, algo que faz parte da rotina de milhares de brasileiros, ontem mais do que nunca, revelou-me o quanto somos mesquinhos, individualistas, egocêntricos e, se é que a palavra “sociedade” pode ser aplicada a nossa forma de organização, o quanto somos uma sociedade fraca, doente, baseada em fundamentos vazios, embora hajam algumas boas teorias do que deveríamos ser.


Ontem, às 6:15h da manhã eu estava num ponto de ônibus lotado, debaixo de chuva, esperando o bendito 607 que me levaria na hora para o meu estágio. Não foi bem assim que aconteceu, três deles passaram direto, abarrotados de gente, sem espaço nenhum para que outras entrassem. Foi então que o 4º ônibus da linha passou e foi obrigado a parar por causa do sinal fechado e quem estava do lado de fora logo percebeu que havia um grande espaço vazio no fundo do veículo, embora várias pessoas insistissem em se apinhar na frente dele, impedindo a passagem dos demais. Prontamente, todos na rua começaram a gritar para que as pessoas chegassem para o fundo do ônibus, todos provavelmente muito atrasados depois de perder outro três e querendo logo sair da chuva e seguir para o trabalho.

Logo depois da roleta uma mulher que se encontrava sentada em frente a trocadora bradava para quem quisesse ouvir que o motorista era um corno por ter parado no ponto e deixado mais gente entrar pra espremer quem já se encontrava no interior do veículo. Dizia que era falta de bom senso dele, se tantos outros ônibus passaram direto, ele deveria fazer o mesmo, porque não? Óbvio que esses comentários geraram grande tumulto, uns falavam que era fácil falar estando sentada confortavelmente, outros que não eram obrigados a agüentar esse aperto num transporte coletivo, alguns apenas soltavam palavrões a esmo e, enquanto a chuva provocava o caos deslizando encostas, desabando casas e alagando residências, o egoísmo instaurava uma batalha dentro de um ônibus.


E assim foi durante 1h, discussões infindáveis, xingamentos, gritos e um outro episódio que merece destaque. Um homem em pé abria janelas a sua frente sem dar satisfações a quem se encontrava sentado embaixo delas e essas pessoas fechavam de novo as janelas para não se molharem, sem se importarem com o calor que imperava em um veículo entulhado de gente e completamente fechado. Em algum momento da discussão e troca de palavrões entre os envolvidos, o homem de pé falou:

- Mó calor infernal dentro do ônibus e vocês não estão nem aí.

- Lógico! Eu por acaso sou obrigado a me molhar por sua causa? - respondeu um homem sentado.

- E eu sou obrigado a sentir calor por causa de você? – revidou o de pé.

Bom, eu não sei vocês, mas nesse momento me deprimi. É sem dúvida uma bela “sociedade” a que construímos, na qual todos nos reconhecemos como estranhos e não como iguais, queremos nos dar sempre bem e somos incapazes de ceder, incapazes de doar, de sermos generosos no nosso dia a dia. Somos um enorme grupo de egoístas e individualistas fingindo que convivemos uns com os outros e que nos esforçamos para sermos bons. Milhares de anos de evolução e chegamos a isso, a falta de carinho e compreensão com o próximo, a ausência de compaixão e a supervalorização do próprio nariz.
E é incrível como em diferentes escalas, somos todos assim, ou melhor, nos tornamos todos assim, e a maioria não vê sequer isso como um problema e não tem a menor ambição de que algo mude. Ontem me questionei muito e quase afirmei a impossibilidade de mudança, mas hoje é um novo dia e como este, outros virão e quem sabe qual será aquele em que vai ser lançada a primeira semente a levar a humanidade para um caminho melhor?

6 de abril de 2010, terça-feira, chuva intensa no Rio de Janeiro, ruas alagadas, tráfego parado, serviços, aulas e trabalhos suspensos, desabamentos, lixo, ruas completamente vazias, mortos, caos.

Não.

6 de abril de 2010, terça-feira, egoísmo intenso no mundo, ausência de compaixão, supervalorização do próprio nariz, incapacidade de doar, de generosidade no dia a dia, de nos reconhecermos como iguais. Mentalidade egocêntrica, uns são mais importantes, merecem mais que outros e essa é a sociedade que construímos e aceitamos como normal.
Isso sim é o caos.

Ela

segunda-feira, 29 de março de 2010

Nas Terras do Bem Virá


Hoje não vou discorrer sobre mais uma opinião minha ou nossa. Vou apenas fazer uma recomendação de um filme que mexeu muito conosco quando o vimos pela primeira vez na TV Brasil, há mais de um ano atrás. Aqui eu vou deixar apenas o trailer, mas o arquivo completo pode ser baixado por esses sites de download da vida, ou mesmo visto em partes pelo youtube.

Uma breve sinopse:

"Nas Terras do Bem Virá" se trata de um documentário realizado por Alexandre Rampazzo e Tatiana Polastri, gravado em 29 cidades de cinco estados do norte e nordeste brasileiro e que aborda entre outros assuntos, o modelo de colonização da Amazônia, o massacre de Eldorado do Carajás, o assassinato da missionária Dorothy Stang e o ciclo do trabalho escravo.


Aqui tem dois sites que encontrei com o arquivo do filme, mas não sei qual a qualidade deles. Espero que ajude quem se interessar em assistir a obra na íntegra, vale muito a pena.

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Quem assistir e tiver vontade de discutir algumas idéias, sinta-se à vontade. Afinal, esse aqui é um espaço feito para todas elas.


Ela

segunda-feira, 22 de março de 2010

Quem Aponta a Direção?

Seria possível um mundo pós-capitalista?

Com tudo dito na postagem anterior é difícil não pensar na inviabilidade da superação do capitalismo. Foi pensando na resposta que muitas vezes foi dada a essa pergunta, "O mundo é assim mesmo não vai mudar! Tudo isso é uma utopia!", que resolvi postar essa matéria.

A resposta que tenho para dar a essas pessoas que acreditam no inexorável destino da humanidade entregue ao modo de produção capitalista é que a mudança não é nenhuma novidade na história da humanidade. O mundo mudou muitas vezes, impérios praticamente indestrutíveis que duraram séculos, até milênios, sucumbiram e novas hegemonias emergiram por mais séculos.

O capitalismo é apenas uma criança se compararmos com os demais modos de produção que o antecederam, porém sua voraz capacidade destrutiva e inovadora tornam-no um caso a parte na sociedade. Em quase 300 anos de história o capitalismo destruiu ¼ das reservas naturais do planeta e relegou boa parte do globo a seu sistema desigual onde os 7 países mais ricos possuem a batuta que rege a economia mundial.

Hoje possuímos um conjunto de técnicas, nunca antes visto na história, que pode efetivamente acabar com fome e miséria no nosso planeta. Mas, por outro lado, o número de pessoas que não possuem os bens necessários para a vida aumenta a proporções alarmantes!

É mais do que possível mudar, é necessário! A roda da história não pára, o mundo irá continuar mudando, o que nós devemos nos questionar é com quem está as rédeas da mudança? Quem aponta a direção?
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Ele

terça-feira, 9 de março de 2010

Porque não foi sempre assim.


'Por que é preciso pensar em uma transição anti-capitalista? E o que seria tal transição? A participação de David Harvey, professor de Geografia e Antropologia da City University, de Nova York, no seminário de avaliação de 10 anos do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, foi uma tentativa de responder estas perguntas. A resposta, na verdade, inclui, em primeiro lugar, uma justificativa da pertinência das perguntas. Após a derrocada da União Soviética e dos regimes socialistas do Leste Europeu, e a queda do Muro de Berlim, falar em anti-capitalismo tornou-se proibido. O comunismo fracassou, o capitalismo triunfou e não se fala mais no assunto: essa mensagem cruzou o planeta adquirindo ares de senso comum. Mas os muros do capitalismo seguiram em pé e crescendo. E excluindo, produzindo pobreza, fome, destruição ambiental, guerra...



E eis que, nos últimos anos, voltou a se falar em anti-capitalismo e na necessidade de pensar outra forma de organização econômica, política e social. David Harvey veio a Porto Alegre falar sobre isso. Para ele, a necessidade acima citada repousa sobre alguns fatos: o aumento da desigualdade social, a crescente corrupção da democracia pelo poder do dinheiro, o alinhamento da mídia com este grande capital (e seu conseqüente papel de cúmplice na corrupção da democracia), a destruição acelerada do meio ambiente. Esse cenário exige uma resposta política, resume Harvey. Uma resposta política, na sua avaliação, de natureza anti-capitalista. Por que? O autor de “A produção capitalista do espaço” apresenta alguns fatos de natureza econômica para justificar essa afirmação.

O capital fictício e a fábrica de bolhas

O capitalismo, enquanto sistema de organização econômica, está baseado no crescimento. Em geral, a taxa mínima de crescimento aceitável para uma economia capitalista saudável é de 3%. O problema é que está se tornando cada vez mais difícil sustentar essa taxa sem recorrer à criação de variados tipos de capital fictício, como vem ocorrendo com os mercados de ações e com os negócios financeiros nas últimas duas décadas. Para manter essa taxa média de crescimento será preciso produzir mais capital fictício, o que produzirá novas bolhas e novos estouros de bolhas. Um crescimento composto de 3% exige investimentos da ordem de US$ 3 trilhões. Em 1950, havia espaço para isso. Hoje, envolve uma absorção de capital muito problemática. E a China está seguindo o mesmo caminho, diz Harvey.

As crises econômicas nos últimos 30 anos, acrescenta, repousam (e, ao mesmo tempo, aprofundam) na disjunção crescente entre a quantidade de papel fictício e a quantidade de riqueza real. “Por isso precisamos de alternativas ao capitalismo”, insiste. Historicamente essas alternativas são o socialismo ou o comunismo. O primeiro acabou se transformando em uma forma menos selvagem de administração do capitalismo; e o segundo fracassou. Mas esses fracassos não são razão para desistir até por que as crises do capitalismo estão se tornando cada vez mais freqüentes e mais graves, recolocando o tema das alternativas. Para Harvey, o Fórum Social Mundial, ao propor a bandeira do “outro mundo é possível”, deve assumir a tarefa de construir um outro socialismo ou um outro comunismo como alternativas concretas.

A irracionalidade do capitalismo

“Em tempos de crise, a irracionalidade do capitalismo torna-se clara para todos. Excedentes de capital e de trabalho existem lado a lado sem uma forma clara de uni-los em meio a um enorme sofrimento humano e necessidades não satisfeitas. Em pleno verão de 2009, um terço dos bens de capital nos Estados Unidos permaneceu inativo, enquanto cerca de 17 por cento da força de trabalho estava desempregada ou trabalhando involuntariamente em regimes de meio período. O que poderia ser mais absurdo que isso!” – escreve Harvey em seu livro “O enigma do capital”, que deve ser lançado em abril de 2010 pela editora Profile Books. Ele descarta, por outro lado, qualquer inevitabilidade sobre o futuro do capitalismo. O sistema pode sobreviver às crises atuais, admite, mas a um custo altíssimo para a humanidade.

Não basta, portanto, denunciar a irracionalidade do capitalismo. É importante lembrar, assinala Harvey, o que a Marx e Engels apontaram no Manifesto Comunista a respeito das profundas mudanças que o capitalismo trouxe consigo: uma nova relação com a natureza, novas tecnologias, novas relações sociais, outro sistema de produção, mudanças profundas na vida cotidiana das pessoas e novos arranjos políticos institucionais. “Todos esses momentos viveram um processo de co-evolução. O movimento anti-capitalista tem que lutar em todas essas dimensões e não apenas em uma delas como muitos grupos fazem hoje. O grande fracasso do comunismo foi não conseguir manter em movimento todos esses processos. Fundamentalmente, a vida diária tem que mudar, as relações sociais têm que mudar”, defende.

“Precisamos falar de um mundo anti-capitalista”

Harvey está falando da perspectiva de um possível fracasso do capitalismo, de um ponto de instabilidade que afete as engrenagens do sistema. Mais uma vez, ele não aponta nenhuma inevitabilidade ou destino histórico aqui. Trata-se de um diagnóstico sobre o tempo presente. “O capitalismo entrou numa fase de cada vez mais destruição e cada vez menos criação”. E quais seriam, então, as forças sociais capazes de organizar um movimento anti-capitalista nos termos descritos acima? A resposta de Harvey é curta e direta: Hoje não há nenhum grupo pensando ou falando disso. “As ONGs e movimentos sociais que participam do Fórum precisam começar a falar de um mundo anti-capitalista. A esquerda deve mudar seus padrões mentais. As universidades precisam mudar radicalmente”.

A justificativa desses imperativos? Harvey dá mais um exemplo da “racionalidade” capitalista atual. Em janeiro de 2008, 2 milhões de pessoas perderam suas casas nos EUA. Essas famílias, em sua maioria pertencente às comunidades afroamericanas e de origem hispânica, perderam, no total, cerca de 40 bilhões de dólares. Naquele mesmo mês, Wall Street distribuiu um bônus de 32 bilhões de dólares para aqueles “investidores” que provocaram a crise. Uma forma peculiar de redistribuição de riqueza, que mostra que, nesta crise, muitos ricos estão fincando ainda mais ricos. “Estamos vivendo um momento de negação da crise nos EUA. Os trabalhadores, e não os grandes capitalistas, é que estão sendo apontados como responsáveis. É por isso que precisamos de uma transformação revolucionária da ordem social”.'

Marco Aurélio Weissheimer
www.cartamaior.com.br
26/01/2010

terça-feira, 2 de março de 2010

Aquele Dia Em Que Outra Vida Acabou - Parte III

Tudo bem, eu não morri, está tudo bem e essa história é apenas uma ficção. Pelo menos até a parte da volta do shopping.

A verdade é que tanto eu, quanto Ele, somos dois enrolados e distraídos. A nova placa com os caminhos do metrô dizia que teríamos que saltar na estação Central, mas não dizia que após as 21h, a transferência é feita na estação Estácio de sempre, o que descobrimos quando saltamos na estação errada. Tivemos que esperar o próximo carro para voltarmos e desembarcarmos na certa. Na saída do shopping, ao invés de sairmos pelo caminho mais curto, acabamos dando uma volta inteira nele e na volta pelo metrô, conversávamos tão entretidos que nos encaminhamos para a plataforma certa, mas quando o primeiro carro chegou na plataforma para o outro sentido, entramos nele sem perceber. O equívoco só ficou aparente na estação seguinte, mas tarde demais para que descêssemos nela e outra vez acabamos na Central. No fim, antes de irmos pra casa, ainda passamos no mercado rapidamente pra levar suprimentos para o domingo, o que fechou nossa sessão de pequenos desvios de tempo.

A questão é que esse pequenos desvios, conspiraram ou aconteceram de forma que chegássemos apenas alguns minutos depois de todo o episódio de violência ter se desenrolado e, embora nada tenha acontecido comigo, ou com Ele, esse foi sim, mais um dia em que uma vida acabou abruptamente em meio a um tiroteio, a vida da Miriam Santos Souza, funcionária de um salão de beleza que provavelmente estava apenas voltando pra casa após mais um dia de trabalho e que possivelmente deixou marido e filhos desolados com a perda repentina e angustiados pela impotência diante da situação.

Matéria completa do "O Dia Online".


É nesse tipo de circunstância, principalmente, que entra o “se”. E “se” não isso e “se” aquilo, quem sabe? Enquanto a vida preencheu a Nossa noite de “ses”, evaziou a da Miriam com um ponto final. E é claro que isso rendeu a nós dois mais uma longa conversa sobre a presença da fatalidade e a não existência de um Deus nos fatos do dia a dia de nós humanos, mas não vou entrar nesses méritos. A grande questão que enxergo nisso tudo é a de que, muito provavelmente você está lendo isso e pensando: “Que bandidos miseráveis, filhos duma égua!” (Ok, não necessariamente com este vocabulário) e de fato, é como a maior parte das pessoas pensa ou pensaria. “Levaram um fim merecido. Bandido bom é bandido morto”. E eu não vou, de forma alguma defender a barbárie que é tirar a vida de alguém, mas também acredito que é fácil cortar a linha de raciocínio por aí. “Joguemos uma bomba na favela e pronto, resolvido”, já ouvi algumas vezes quem dissesse isso e não culpo, somos induzidos a tal muitas vezes. Mas se pararmos e pensarmos mais a fundo sobre o assunto, talvez encontremos problemas no alicerce do sistema em que vivemos, um sistema que privilegia, que segrega, que renega. E quem tem a sorte de não nascer perto ou dentro da parte que é segregada e renegada por ele, dá continuidade a esse processo por meio do preconceito.

Digo sorte por que é no que acredito, talvez você acredite que nasceu longe da violência “graças a Deus” e que merece seu berço tanto quanto o pobre merece dormir no chão. Talvez acredite que só o esforço deste compensará e o tirará dessa vida, mesmo que você nunca tenha se esforçado para se manter na escola, para agüentar a fome, para dormir apesar dos tiros e do medo tão próximos. De fato, alguns conseguem se livrar de tudo isso pelo esforço, pelo sacrifício, para então integrar a nata do sistema e contribuir para a permanência dele.

Me parece uma contradição sem tamanho alguém crer que exista um deus que ame a todos os seus filhos de forma igual e que esse mesmo deus, privilegie uns mais do que outros já no berço, no único momento em que não se tem culpa de nada. O problema, está nos homens que tendem ao egoísmo, embora dotados de inteligência para afastar essa característica das suas ações e assim, atingir a humanidade. O sistema em que vivemos é baseado nesse lado primitivo que se tornou a base do nosso pensar moderno e razão do existir de tantos pensamentos como o de que é exclusivamente culpa do pobre a sua própria miséria e seu enveredar para a criminalidade. Sinceramente, não consigo ver idéia mais segregadora que esta.

Enfim... vou parar por aqui por hoje. Talvez um dia me alongue no assunto, que considero tão importante de se discutir, mas até lá, quem quiser, avalie a possibilidade do que escrevi fazer algum sentido e de difundir um pouco essa idéia de que a violência tem influência direta do sistema em que vivemos, da desigualdade e da falta de humanidade entre os homens, e quem sabe um dia, não será tão alto o número de vidas a acabar tão repentinamente e nem o de pessoas que sofrem lentamente as dificuldades de uma vida que não podem escolher. Quem discordar, tudo bem. Entre tantas mil maneiras de se pensar, a minha é apenas mais uma e respeito as que diferem dela, pois não pretendo mudar a cabeça de ninguém, mas quem sabe, abrir algumas...

... é apenas uma idéia.

Ela

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Aquele Dia Em Que Outra Vida Acabou - Parte II

Nesse momento o seu celular toca ao longe, talvez esteja caído no meio da rua. Não, não é o Dela, é o Dele. Ela reconhece porque é aquele toque chato que sempre anuncia que é hora de acordar. Ele, que antes a segurava bem perto de si, agora a está balançando de um lado para o outro, o que começa a irritá-la.

- Amor... amor... acorda, amor, tá na hora... - A voz Dele se faz nítida dessa vez.

Ela abre os olhos e o vê fitando-a, com aquela carinha amassada que o deixa com um bico enorme. Quando percebe que conseguiu acordá-la, Ele volta a deitar abraçando-a.

- Gosto tanto de dormir com você... durmo tão bem... - Ele diz enquanto aninha o rosto no pescoço Dela.

Ainda está nervosa, seu coração não desacelerou por completo e há uma dor no alto de sua barriga que a faz tatear rapidamente o ponto dolorido, mas nada encontra. Afinal, foi apenas um sonho ruim.

- Eu também, amor, muito mesmo! Mas hoje dormi mal... tive um pesadelo muito longo.

- Sério?! Sonhou com o que?

- Sonhei que tinha levado um tiro na barriga.

- Eu também! Sonhei que tinha levado dois tiros no peito!

- Ai, credo... tô até agora com uma sensação esquisita na barriga.

O despertador toca mais uma vez, anunciando que já se passaram cinco minutos desde a última vez que tocou.

- Já são 10:10h, melhor você ir tomar banho, se não vai se atrasar pro trabalho. - diz Ele preocupado, pois sabe que Ela não consegue tomar um banho rápido.



- Tá bom, mas antes me dá um abraço!

E Ele a abraça, bem apertado, como faz sempre, carinhoso que só Ele. Ela devolve o abraço como sempre, pois carinho é algo que não cabe em seu interior e precisa se expandir pro corpo Dele. Que bom que está tudo bem e que Eles estão ali, felizes, como sempre o são ao lado do outro.

O celular toca outra vez, mas dessa vez é uma chamada da mãe Dele que viajou, deixando a casa para os quatro: Ela, Ele, a irmã Dele e o namorado dela.

A chamada a ajuda a tomar coragem pra se levantar e ir para o banho. Estando pronta para trabalhar, os dois saem. Ele vai junto porque pretende passar no mercado para comprar comida para a pobre tartaruga que vive seus lamentos de prisioneira numa bacia vermelha, na varanda do apartamento.

O ônibus Dela passa por Eles antes de chegarem no ponto e os dois se despedem rapidamente para que Ela consiga alcançar a condução. O caminho até o trabalho não demora muito, é sábado, dez minutos para as 11h da manhã, e o trânsito está livre. Isso a faz lembrar que está indo trabalhar e que infelicidade é trabalhar sábado. Não é algo que aconteça sempre, mas quando acontece é sempre ruim, porque geralmente, Ela tem outros planos pra dias ensolarados como este. E que dia lindo por sinal. Depois de dois dias de tempestades, não era de se esperar que esse amanhecesse tão belo.

Tomara que eu termine tudo logo e consiga aproveitar um pouco ainda desse dia.

O trabalho não é ruim, na verdade é um estágio, e diferente da maioria dos estagiários que Ela conhece, gosta do seu. O que não impede que prefira passar o sábado fazendo outras coisas que não editando reportagens de última hora para o canal em que trabalha.

Chegando lá, parece que tudo correrá bem, mas ao longo do dia surgem problemas e mais problemas que a fazem ficar lá além das 17h que completariam as 6 horas de trabalho diário que lhe cabem. Sai de lá exausta e um pouco triste por ter passado um dia lindo como aquele em frente a uma tela de computador.

Volta pra casa Dele, onde Ele, a irmã e o namorado dela a aguardavam assistindo a um programa de encontro de casais, desses que se não preenchem o domingo da TV aberta, dominam o sábado. Ele está deitado na cama da mãe, assistindo a TV e tão prontamente a ver entrar no quarto a puxa para a cama e a aperta contra si.

- Calma aí, eu vou tomar um banho. - diz Ela um tanto quanto irritada, não com a demonstração de carinho, mas por pensar que podia ter passado o dia inteiro assim se não tivesse trabalhado.

- Ah, nãaao! Fica um pouquinho aqui comigo!

Ela cede a esse apelo porque afinal, é o que quer também.

Eles assistem um pouco do programa que acaba divertindo os quatro. Incrível como um programa tão inútil causa de fato divertimento as pessoas. Mas também, quem disse que o distrair tem que ter conteúdo ou ser construtivo?

- Tava pensando em ir lá no Shopping Nova América buscar minha calça que ficou lá pra fazer bainha. Vamos?

Ela faz uma careta de desagrado com a idéia de ir até o shopping só pra buscar uma calça.

- Tem que ser hoje?

- Porque, tá muito cansada?

- Tô...

- É que eu queria ir com ela na cerimônia de entrega da carteira da OAB da minha irmã, na segunda.

- Tudo bem então.

- Aaah, tudo bem não, não quero te obrigar a ir... se você tá muito cansada, então a gente fica aqui.

- Tudo bem, amor, dá pra ir.

Os dois ficam deitados por mais algum tempo aproveitando a companhia e o ar-condicionado, até que decidem se levantar pra ir ao shopping, lembrando que as lojas fecham as 22h e já passava das 20h. O casal, então começa a se aprontar com um pouco de pressa, mas como o outro casal da casa também está se arrumando pra sair e nessa confusão, só existe um banheiro, Eles acabam demorando mais do que gostariam. Assim que terminam, saem de casa e caminham em direção a estação do metrô mais próxima, a Afonso Penna. O metrô tinha sofrido algumas mudanças recentemente e a irmã Dele o tinha alertado de que a transferência para a Linha 2 agora era feita na estação Central, onde os dois saltam e embarcam em outro carro, com destino ao shopping.

Chegando lá, entram na loja, pedem a calça que ele experimenta. Constatado que estava tudo bem, Eles a levam, saindo do shopping pelo caminho mais curto até o metrô ( o mesmo pelo qual vieram) e fazendo o mesmo trajeto até a saída na estação Afonso Penna. Eles conversam muito durante todo o caminho, assuntos e assuntos que não têm fim, como sempre foi desde que se conheceram, há quase três anos. Um quadro que se agravara quando começaram a namorar, há exatos 1 ano e 5 meses desde o dia em que Ele, enfim, a pedira em namoro.

Tão logo saem, sobem a rua Professor Gabizo, apenas parando de mãos dadas, na sua esquina com a Haddock Lobo para aguardar o sinal fechar e poder atravessar a rua. Ele é o primeiro a perceber o barulho da sirene se aproxima rapidamente. Não, não é uma, são mais e a consciência disso o deixa alerta. Ela só percebe os sons quando vê 2 viaturas que se aproximam a toda velocidade perseguindo uma moto com dois homens. Na rua paira o silêncio humano, como se cada pessoa presente tivesse parado o que fazia ou falava para assistir à sinfonia de sirenes e motores. Uma terceira viatura se descoloca na contra mão, pondo-se no caminho da perseguição. O trânsito começa a desviar da viatura em meio a gritos e buzinas e o caminho se fecha para a moto que freia bruscamente, encurralada. Mas o caos só se instaura quando soa o estampido. Aquele que mesmo quem não está acostumado a ouvir, reconhece. Seguido do primeiro, uma sucessão de tiros o seguem, tiros que de tão perto, não tem direção, apenas sons a confundir os sentidos. O silêncio humano então, se quebra numa mistura de gritos e passos apressados e são esses sons que tiram os dois do transe. Eles imediatamente abaixam a cabeça protegendo-a com o braço que não segura a mão do outro e correm para a direita, na tentativa de encontrar abrigo do tiroteio por entre os carros estacionados desse lado da rua. Na esquina fica um bar que numa noite de sábado, estava cheio mas tão logo começam os tiros, as pessoas que nele estavam começam a sair e a correr para a rua desenfreadamente, ao invés de procurarem lugar pra se esconder. E nessa correria maluca, algumas delas colidem com o casal que se desloca no sentido contrário do fluxo, lançando o pânico entre os dois de se perder do outro. As mãos não suportam a força das colisões e acabam se soltando. Ela fica para trás enquanto Ele corre para a lateral de um taxi parado, que faz barreira entre a calçada e o confronto. Ela tenta segui-lo e o terror já a faz empurrar as pessoas que vêm em sua direção com toda força que pode para que desbloqueem seu caminho. Ela corre para o taxi atrás do qual Ele já está agachado esperando-a, com uma das mãos estendidas em sua direção. Assim que chega a parte da janela do taxi, vem o alívio daquele que sabe que sobreviveu. E em meio a essa mistura de sensações de medo e alívio é que ela sente uma terceira, só que ao contrário das outras, física. O beliscão a empurra com força para a esquerda, fazendo-a perder o equilíbrio e cair na calçada.

Não, não pode ser... porquê eu?!

Em meio a tantos outros gritos Ela ouve o Dele, ouve a voz, entende o tom de desespero, mas não percebe palavra.

Ela deixa o corpo pesar por sobre os braços que a sustentam desde que apararam sua queda e, deitada no chão, se vira de costas para a calçada fria. Sente as mãos Dele puxando-a pelo braço direito para perto de si. Sente a dor, logo abaixo do seu seio esquerdo e o calor do sangue que rapidamente molha sua blusa. Ele pousa uma das mãos por sobre a mancha vermelha que se avoluma, na tentativa de estancar o sangramento. A outra já segura o celular e tenta discar algum número, talvez o da emergência. Ela tenta chamá-lo pelo nome e a voz não sai, mas talvez tenha mexido os lábios, porque ele para o que está fazendo para prestar atenção Nela. Seu rosto já está coberto de lágrimas e o desespero Dele faz Ela se desesperar também. Lembra do sonho daquela manhã, daquela linda manhã que havia perdido e tenta acordar, em vão. Pensa na tarde que podia ter passado com o homem que amava fazendo nada, fazendo amor e em tantas outras que ainda queria passar com Ele. Outras pessoas já tinham se aproximado Dela, sem que percebesse, talvez tivesse apagado nesse meio tempo. Um homem que nunca vira na vida ajuda a fazer pressão no ferimento para estancar o sangue.

Não é possível que esse seja meu último dia.



Ela não quer que seja e se depara surpresa, com a fugacidade da vida. Há alguns minutos, Ela era uma pessoa com sonhos, sentimentos, futuro. Nos próximos, apenas teria sido uma, mais uma. E pensar que não havia falado uma vez sequer no dia com sua mãe... que filha desnaturada. Ela pede em silêncio para que sua irmã fique bem, que a perda não atrapalhe seus planos, sua vida e que tudo dê certo pra ela. Nesse momento o choro tenta escapar-lhe, mas entala em sua garganta. Que pena não poder acompanhar os passos dos queridos que ficam.

Algo vibra na sua perna esquerda e logo depois começa a tocar uma musiquinha alegre que Ela reconhece como o toque do seu celular. O som a remete mais uma vez ao sonho daquela manhã e com ele, uma centelha de esperança se acende em seu íntimo.

Talvez seja nesse momento em que eu acordo...

Ela

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Aquele Dia Em Que Outra Vida Acabou - Parte I

A rua é muito estreia, mal dá para o carro passar. A hora avançada a faz parecer ainda menor, com as sombras se avolumando por sobre o asfalto e o comprimindo, até restar apenas um filete de cinza mal iluminado em seu centro. O carro não passa de 20 km por hora e a demora para sair desse cenário claustrofóbico a deixa impaciente.

- Não dá pra ir mais rápido? - Ela pergunta para ele, que dirige o automóvel.

- Até dá, mas eu prefiro garantir que não vou bater em nada, nem arranhar o meu carro!

Ela se remexe no banco do carona, se sente pressionada pelas paredes das casas, que parecem tentar esmagar o veículo. Melhor se distrair, voltar a atenção pra outra coisa, Ela pensa. Se ao menos desse pra enxergar o fim dessa rua, mas só o faixo iluminado pelos faróis é visível. Ela está pensando sobre isso quando outros dois faróis se acendem, bloqueando a passagem logo a frente.

- Cuidado! - Ela grita para Ele, que freia.

Do carro que esteve parado ali o tempo todo apenas esperando por Eles, ou quem mais pudesse cair na armadilha, descem dois homens armados com pistolas, um por cada porta da frente. Ela gela no banco. O cinto, antes uma segurança, perece afundá-la de encontro ao encosto. O ar entala em sua traquéia, antes de alcançar os pulmões. Ele solta o volante e segura a mão Dela com força, o que em qualquer outra situação, a faria sentir dor, mas naquela, lhe transmitiu segurança, pelo menos durante os segundos que os assaltantes levaram para chegar até o carro do casal. Um veio pelo lado direito, o outro pelo o esquerdo, cercando os dois. Do lado Dela, o homem aponta sua arma contra o vidro e com gestos, a manda destrancar a porta, mas Ela não precisa fazê-lo. Ele, que também está sendo abordado por um bandido já o fez. O homem que a cerca então abre a porta com força, batendo-a na parede de uma casa. O assaltante, que já conhecia o tamanho da rua, havia se postado mais para trás da porta, de forma que ela não bloqueasse sua passagem e lhe permitisse ficar frente a frente com sua vítima.

- Desse do carro, piranha! Perdeu essa porra! - ele grita.

Ela demora a compreender o significado das palavras, porque de repente, o mundo parece estar se movendo um pouco mais devagar. Ao perceber sua demora, ele a puxa pelo braço para fora do carro e a força do puxão pressiona seu pescoço contra o cinto de segurança, machucando-a.

- Espera, deixa eu soltar o cinto!

Ela se vira para o outro lado, aquele em que Ele deveria estar sentado, mas o outro bandido já o puxara pra fora e estava entrando no carro. Ela se desespera pra tirar o cinto, para acabar logo com aquilo, mas suas mãos já não a obedecem e se emaranham uma na outra na tentativa de apertar o botão que destrava o cinto de segurança. O outro assaltante que a essa altura já está dentro do veículo, empurra suas mãos pra longe e ele mesmo aperta o botão. Ao se ver livre, Ela se vira prontamente em direção à saída e se levanta de forma brusca, na sede de escapar do terror que a aflige e talvez, tenha sido esse levantar brusco que tenha assustado o bandido que a aguardava na porta e o feito atirar à queima roupa. Ela não viu, apenas ouviu o estampido e sentiu uma espécie de beliscão na barriga, na altura do estômago. O assaltante, que ainda segura seu braço direito, lhe dá um leve puxão para o lado, fazendo-a cair com as costas no asfalto, no pequeno vão entre o carro e a parede da casa mais próxima. Ela ouve a porta do carro bater e a partida do veículo, mas os sons parecem distantes. Percebe gritos igualmente distantes e demora a notar que são os gritos Dele.

Meu Deus, eu levei um tiro! Ela pensa.

Tudo fica repentinamente claro, assim como a dor no alto da sua barriga, que Ela tenta sufocar com uma das mão, mas no caminho, encontra apenas sua vida que se esvai vermelha pelas laterais do seu corpo.

As mãos Dele, aquelas que tanto a tocaram com carinho, agora a seguram com força, num gesto de desespero. Seus braços a envolvem num abraço que a aproxima do rosto Dele, mas sua cabeça pende um pouco pra trás e tudo que Ela vê, são as estrelas. Ele balbucia algumas coisas que Ela não entende, mas o desespero na voz a atinge com mais força que a dor no abdomen e Ela tenta levar sua mão até o rosto Dele, para acalmá-lo, mas já não tem forças.

Será que eu vou morrer aqui?

E em meio a dor e medo, tudo que consegue pensar são naqueles toques carinhosos das mãos Dele, na voz que sempre embalava as suas conversas e que, seja como for, vai sentir muita falta de tudo isso.


Ela