domingo, 11 de julho de 2010

Criança, a Alma do Negócio

No dia 08/07, quinta-feira, uma fortíssima dor de cabeça e mal estar me impediram de ir trabalhar. Ainda indisposta, aproveitei para fazer algo que eu não fazia há muito tempo: assistir desenho animado pela manhã. Pois é, nada melhor que isso quando se está doente, lembra aqueles dias maravilhosos em que minha mãe me deixava matar aula pra ficar o dia inteiro sem fazer nada de útil. Bons tempos. Mas o que me chamou realmente a atenção não foram os desenhos que já não são mais aqueles da minha época e sim um intervalo comercial específico em que nada mais nada menos do que quatro chamadas do Mc Donald's foram exibidas entre um bloco e outro de um desenho. Quatro chamadas estimulando crianças a comerem gordura para em troca ganhar um brinquedinho, ou melhor, a comerem gordura várias vezes e colecionarem o tal brinquedo.


Já é do conhecimento de todos que a propaganda não perdoa ninguém, que a intenção é vender a qualquer custo e que comerciais direcionados a crianças só serão exibidos nos horários que elas costumam assistir televisão, mas não parece absurdo como uma covardia dessas é permitida? Nós adultos muitos vezes já não temos discernimento diante de propagandas, imaginem as crianças que ainda são imaturas demais pra elas e por isso mesmo, absorvem tudo e as reproduzem de uma forma incrível.

No último dia 29, saiu uma nova resolução da Anvisa que obriga o alerta a saúde na publicidade de alimentos pobres em nutrientes. A resolução, embora sinalize um avanço, deixou a desejar pois excluiu a parte do texto que defendia as crianças da publicidade abusiva de alimentos, como a proibição da venda casada de brindes e alimentos prejudiciais a saúde, caracterizada como uma prática cruel. Por tanto, ainda que diante de uma evolução, estamos muito longe de que a justiça seja feita com relação à saúde infantil. Leia a notícia sobre o assunto no Yahoo! Notícias.

Pra quem se interessar pelo assunto eu recomendo também um documentário muito interessante, o Criança, a Alma do Negócio, que mostra o quanto, atualmente, a publicidade influencia a vida de crianças e adolescentes e o quanto a infância é cada vez mais encurtada no intuito de que os pequenos sejam transformados em consumidores o mais cedo possível. O filme é inacreditável , tem só 50 minutinhos e carrega super rápido, é só clicar AQUI e assistir. Muito útil para quem quiser refletir sobre o por quê nós permitimos que uma coisa dessas aconteça e por que não há uma luta maior para acabar com essa covardia que em prol única e exclusivamente do lucro, não respeita nem a saúde, nem a infância.


Ela

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Última Tentação de Marx

Ao ler este pequeno texto fui surpreendido pela criatividade e perspicácia do autor, Armando Avena, ao tomar emprestada a personalidade de Marx para explicar as transformações ocorridas no capitalismo ao longo do século XX. Recomendo esta leitura rápida e prazerosa a todos e espero que ela lhes proporcione alguns minutos de reflexão. Deliciem-se com o texto!!!!

Foi um grande avanço
da ciência. Depois de exaustivos estudos, os cientistas encontraram a técnica de transposição no tempo e no espaço. Perplexo, o mundo inteiro parou para ver o primeiro homem que viria do passado para o presente. A escolha tinha sido difícil. Os filósofos queriam Platão, os religiosos exigiam que fosse Jesus, os militares preferiam Napoleão, mas as empresas transnacionais, que patrocinavam o evento, queriam Marx.

Era uma escolha emblemática. Karl Marx tinha sido o criador do socialismo, o homem que havia previsto o fim do sistema capitalista de produção e ninguém melhor do que ele para explicar por que suas previsões haviam falhado. Estava na hora de explicar o fiasco da União Soviética e de louvar o capitalismo e sua fantástica capacidade de perpetuação.

Como o processo de transposição no tempo permitia uma estada no futuro por apenas 48 horas, tudo foi planejado de modo que no primeiro dia, através de um moderno sistema de multimídia, Marx pudesse se inteirar do que havia ocorrido de importante no século XX, para que no dia seguinte respondesse, em rede mundial de televisão, às perguntas dos jornalistas do mundo inteiro.


A primeira reação de Marx, ao se ver materializado no futuro, foi de espanto e estupefação, mas gradualmente a mente privilegiada do pai do socialismo percebeu o que se passava e a extraordinária possibilidade de checar suas teorias. Aprendeu em minutos a manejar o computador e mergulhou de cabeça no conhecimento e na análise dos acontecimentos ocorridos depois de sua morte. Não dormiu um momento sequer e, no dia seguinte, quando se apresentou à indócil platéia de jornalistas, ainda tinha um ar estupefato mas parecia extremamente seguro, como se pudesse explicar tudo o que havia acontecido depois da sua morte.

Não demorou um segundo e uma pergunta partiu do fundo da sala, questionando o marxismo e sua aplicação na União Soviética e pedindo explicações para o fracasso do socialismo. E, então, urna voz tonitruante tomou conta do auditório e o velho Marx falou o que ninguém esperava ouvir:

- Se aquilo que implantaram na tal de União Soviética for marxismo, eu não sou marxista!

E começou a explicar que jamais admitiu a possibilidade de um país pobre e quase feudal, como a antiga Rússia, chegar ao socialismo. Segundo Marx, isso não poderia ocorrer porque o socialismo pressupunha um alto nível de desenvolvimento tecnológico e uma produção abundante. Não se poderia socializar a miséria, por isso a pátria do novo regime teria de ser obrigatoriamente uma sociedade opulenta. Lembrou que suas previsões indicavam a Inglaterra, o país mais desenvolvido de sua época, como o primeiro lugar onde ocorreria a revolução socialista. E que nunca passou por sua cabeça que a revolução pudesse ser feita em um país não-industrializado, através de uma esdrúxula aliança entre camponeses, proletários e a pequena burguesia.

Lembrou também que jamais aceitaria a tese do socialismo num só país ou num bloco de países. Isso não poderia acontecer pois ia de encontro à lógica do processo. Se a revolução acontecesse no país mais desenvolvido do planeta, a força dessa potência determinaria que os demais países seguissem a mesma linha e em breve todos seriam socialistas. Mas, se contra todas as evidências, a revolução ocorresse num país atrasado, as potências capitalistas nunca permitiriam que ela se expandisse; pelo contrário, estes países, até pela necessidade de sobrevivência, atuariam sempre como contra-revolucionários, lutando para destruir o socialismo.

- Essa história de socialismo num só país ou num bloco deles é coisa desse tal Lênin e desse outro, vade retro, Stalin. Quanto a mim, neste ou no outro mundo continuarei a ser internacionalista.

A expressão quase possessa daquele homem impressionou o auditório, mas não evitou que novas perguntas pipocassem por toda a sala. Uma delas foi incisiva e questionava as previsões de Marx, que garantiam que o socialismo se expandiria por todo o planeta. Alguém indagava, com visível ironia, sobre o que havia salvado o capitalismo da crise e da destruição que ele havia previsto.

- Fui eu, Marx, quem salvou o capitalismo!

Todos ficaram atônitos, alguns riram sem contudo esconder a perplexidade. Nesse momento, Marx fez seu mea culpa. Reconheceu que havia errado em muitas de suas previsões e que fora excessivamente evolucionista, acreditando numa tendência inexorável dos acontecimentos. Seu maior erro porém foi não ter previsto a incrível capacidade de adaptação do sistema capitalista. Se o sistema permanecesse o mesmo, se a exploração selvagem perdurasse, se os salários continuassem em níveis irrisórios seria inevitável à revolução e suas previsões se confirmariam. Mas, ao anunciar o fim do capitalismo, ele, Marx, dera uma alternativa aos trabalhadores, e a Revolução Russa, mesmo desvirtuando a essência teórica do marxismo, parecia demonstrar que esta esperança estava próxima. Para sobreviver, as classes dominantes tiveram que ceder alguns privilégios. O medo do comunismo fez o capitalismo mudar.

E o que se viu nos países ricos foram mudanças até certo ponto radicais, que melhoraram a vida dos trabalhadores, reduziram sua jornada de trabalho e aumentaram os salários acima dos níveis de subsistência. Como pensar em revolução, se o proletariado desses países recebe um salário digno, educação e saúde gratuita e até, suprema ironia para quem falava da necessidade de um exército de desempregados, seguro-deserrprego. Os países ricos provaram que era possível distribuir a renda sem mexer no sistema capitalista de produção.

De repente, um barulho infernal tomou conta da sala e, em coro, surgiu a indagação:


- Então, Marx mudou?

A resposta veio de imediato:

- Quem mudou não fui eu, foi o capitalismo!

E o velho pensador mostrou que o capitalismo moderno era completamente diferente daquele que ele havia analisado e que se pudesse novamente estudá-lo teria de reescrever O capital. Todavia, antes que algum incauto dissesse que ele era um vira-casaca, que estava elogiando o sistema, apressou-se em dizer que o novo capitalismo tinha tantos problemas quanto o anterior. Que o desemprego era a praga deste século, e que, se havia alguma justiça social nos países ricos, a miséria nos países pobres era tão grande quanto na sua época.

Um extraordinário burburinho tomou conta da sala, mas o silêncio foi total quando alguém se levantou e pediu uma declaração enfática de Marx contra a privatização das empresas estatais, afinal o pai do socialismo deveria ser favorável à estatização.

Qual o quê! Marx mostrou que não poderia ser a favor da ampliação do estado, pois sua teoria tinha como meta exatamente a extinção do estado, que sempre é cooptado pelas classes dominantes. A função da ditadura do proletariado era acabar com o estado burguês, e pavimentar o caminho para o comunismo, um sistema em que não haveria estado. Os soviéticos criaram um estado burocrático, que pouco tinha a ver com as idéias marxistas. Do ponto de vista marxista não havia defesa possível para a estatização.

Novamente gritos de protesto e uma pergunta ecoou por toda a sala:

- E o futuro? E o futuro?


Marx era um profeta incorrigível e mais uma vez caiu em tentação. Previu novamente a revolução. Mas alertou que o conflito não seria mais entre proletários e capitalistas, entre esquerda e direita. Estabeleceu que essas categorias estavam ultrapassadas e vaticinou que o drama do mundo moderno seria o confronto entre ricos e pobres. A dualidade entre a opulência dos países ricos e a miséria dos países pobres seria o estopim da nova revolução. Uma Europa cercada de fundamentalistas por todos os lados, hordas de miseráveis invadindo as grandes cidades e a maior potência do mundo invadida por milhares de mexicanos famintos. O auditório ficou em silêncio e o próprio Marx calou-se como que temeroso de sua profecia. Antes que a entrevista se encerrasse, uma frase ecoou no recinto:

- É, mesmo morto, o velho Marx continua brilhante.



Ele

sábado, 26 de junho de 2010

Uma Inspiração

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".
Eduardo Galeano

Foi lendo essa máxima que comecei a me indagar a respeito desse conceito: Utopia. Essa palavra é freqüentemente empregada num sentido negativo, o que é utópico é impossível, não vale a pena e até certo ponto, designa ignorância, inocência. Eu pensei: mas por que? Por que uma palavra com um significado tão amplo, tão rico foi reduzida a uma associação com a negatividade? Para chegar a uma resposta, analisei a definição da palavra no bom e velho Aurélio.

Utopia: s.f. Local ou situação ideais onde tudo é perfeito. &151; O substantivo utopia vem das palavras gregas ou e topos, q
ue significam sem lugar. Refere-se especialmente a um tipo de sociedade com uma situação econômica e social ideal. Freqüentemente a palavra é empregada para designar sistemas ou planos de reformas considerados pouco práticos ou irrealizáveis.

“Local ou situação ideais onde tudo é perfeito.” Parece bom... mas então por que, em grossas palavras, perfeito é bom e utópico é ruim?
Se o viver é uma eterna busca pela perfeição profissional, familiar, espiritual a qual temos plena consciência de que jamais alcançaremos, então por que buscar a perfeição é algo positivamente estimulado, mas seguir uma utopia é visto como infantilidade e tão abertamente reprimido? Eu digo o porquê. Porque a perfeição está associada ao campo do físico, do indivíduo e de tudo que o cerca diretamente, enquanto a utopia é relacionada ao campo das idéias, principalmente na relação com o social, o que não é lá muito interessante pra quem detém os privilégios provenientes de uma sociedade desigual. O que nos remete a outra parte da definição do dicionário.

Refere-se especialmente a um tipo de sociedade com uma situação econômica e social ideal. E o que seria uma sociedade ideal?
Bom, essa na qual vivemos é que não é e com certeza, estamos muito longe dela. E antes que digam que nunca chegarems a essa situação ideal eu digo: sim, eu sei. Assim como todos sabemos que jamais seremos pais perfeitos, profissionais perfeitos ou pessoas perfeitas. Mas ainda assim, buscaremos isso, não é verdade? Mas e buscar uma sociedade com uma situação econômica e social ideal? Porque isso é simplesmente um “sonho impossível” e não uma meta da sociedade como um todo? E porque, depois de tanto tempo de civilização estamos tão longe disso?


Me indagando sobre essas questões, me veio um exemplo em mente: o computador. É, isso que está viabilizando a exposição dessas idéias que escrevo. Esse objeto que faz parte de todos os nossos dias, ao qual dedicamos sempre algumas horas, seja para o trabalho ou o lazer e sem o qual não conseguimos mais viver sem. Quem diria há 200 anos atrás e menos até, que um dia seria possível que cada indivíduo tivesse um desses em sua própria casa e que ele seria a base para a criação de outras tecnologias inimagináveis. Muitos disseram que isso era impossível, mas isso não impediu outros de tentar e depois de tanto estudo e empenho, temos tudo o que temos hoje. E o computador, o Ipad, o Iphone não são perfeitos, acho que isso é bem claro para todos ou não perderíamos arquivos, não ficaríamos na mão por que um deles do nada não funciona ou porque foram invadidos por um vírus. Mas olhe o quão longe chegamos em tão pouco tempo e observe o quanto a busca pela perfeição teve papel essencial nisso, mesmo quando acharam que no mundo não existiria lugar para tal feito.

É então que vamos para outra parte da definição: o substantivo utopia vem das palavras gregas ou e topos, que significam sem lugar. Bem já sabiam os gregos que não há lugar para o ideal no mundo, nem mesmo a natureza é perfeita, ainda que esteja próxima disso, ou não existiria o câncer, por exemplo. Nada é perfeito nesse mundo e assim será até o fim dos tempos. Então qual é o sentido do ideal afinal? O ideal é a inspiração e a motivação o que nos faz caminhar em direção ao melhor que pode ser, o melhor que podemos ser. Então por que não seguimos a utopia? Por que não nos inspiramos nela, pra que consigamos chegar o mais próximo possível da perfeição social?

Entra em cena, então, a última parte da definição: Freqüentemente a palavra é empregada para designar sistemas ou planos de reformas considerados pouco práticos ou irrealizáveis. E foi assim que utopia virou uma coisa ruim. Foi associada ao fracasso, vista com desdém. Hoje, praticamente todos reproduzem essa idéia: quem segue uma utopia é aquele que acredita piamente que um dia tudo será perfeito, um sinal de infantilidade, mas com a idade e a experiência ele esquecerá isso e verá que nada irá mudar nunca. E assim, a sociedade se conforma com o sistema em que vive e por isso não caminhamos em direção a perfeição social, porque somos adestrados a vê-la não como inspiração, mas como um atestado de fracasso eminente.

Neste exato momento estamos todos parados, ninguém caminha, quem sabe estamos até retrocedendo no campo social, mas assim como buscamos a perfeição no campo pessoal, deveríamos todos seguir a utopia, um local (sociedade) onde não haja diferença de recursos entre os homens, onde as oportunidades sejam iguais assim como os direitos, onde não haja individualismo, onde o sistema dominante leve o nome do seu maior bem, mas que este sejam os seres humanos e não o capital. Parece ideal? Utópico? Pois então me inspira. Mais perto da utopia do que estamos com certeza podemos chegar, desde que caminhemos.


Ela

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Para a Copa pode!!!

Na última terça-feira (dia 15/06) após o jogo da seleção brasileira estava caminhando pelas ruas do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, e me deparei com uma multidão encarnada em verde amarelo inundando as ruas de alegria. Não mais que de repente, uma pergunta varreu meus pensamentos: o que legitima a paralização e a desordem do trânsito; a realização de shows em pleno dia útil e a ocupação dos cidadãos de espaços outrora ocupados apenas por automóveis?

Para responder a esta pergunta procurei na internet, em sítios vinculados as grandes corporações midiáticas do país, algumas reportagens que versavam sobre o assunto.


Alzirão vai ter shows de funk e samba

Várias ruas do Rio servirão de cenário para a torcida dar um “empurrãozinho” à seleção brasileira na conquista pelo hexa. Equipadas com telões e palcos para shows de funk e samba, a rua Alzira Brandão, mais conhecida como Alzirão, na Tijuca, na Zona Norte, espera receber mais de 30 mil pessoas na terça-feira (15), quando o Brasil estreia no mundial enfrentando a Coreia do Norte. A festa também promete se estender pelos outros bairros da cidade. A Secretaria municipal de Transportes fez um esquema especial de trânsito.

Em Copacabana, o monitoramento de trânsito começará cedo, a partir das 6h30 de terça-feira (15), 160 PMs, 90 guardas municipais e agentes da Secretaria de Ordem Pública (Seop) vão atuar no trânsito para evitar tumulto nas proximidades da Arena Fifa Fan Fest, na Praia de Copacabana. Também no mesmo bairro, a Rua Miguel Lemos terá reforço de guardas e PMs, para auxiliar na concentração de torcedores pelos bares da rua.



SP: Ministério Público não impedirá manifestação dos professores

De acordo com o Promotor José Carlos de Freitas, o Ministério Público não impedirá a manifestação de professores que será realizada pela Apeoesp, na Av. Paulista. A passeata deve ocorrer nesta sexta-feira, dia 12, como o previsto. O promotor analisou o Ofício da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) e afirmou que não tem como impedi-los de exercer o direito constitucional. "Juridicamente eles estão corretos. O problema é se explorarem o limite do vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp) causando transtorno ao trânsito e pessoas", afirmou.

A Apeoesp comunicou a CET com antecedência sobre a manifestação que deve ficar no limite do vão livre do Masp. Segundo o Promotor, isso por si só, não causa violação aos direitos. Se a manifestação passar do limite do vão livre como o estipulado, o Ministério Público vai ingressar com ação e a Apeoesp será punida. "Em 2005 eles já tiveram uma condenação por esse motivo, inclusive, eu a estou executando. Temos também uma outra ação em curso de 2008", disse José Carlos de Freitas.



Essas duas notícias apontam uma contradição básica no que diz respeito a ocupação do espaço público. A primeira notícia dá conta de toda infra-estrutura montada pelo Estado e pela iniciativa privada para, nas palavras do repórter, dar um “empurrãozinho” à seleção brasileira. Na segunda reportagem podemos observar o acionamento do ministério público, a fim de impedir a manifestação dos professores sob a justificativa de paralisação do trânsito.

Se não me engano os dois eventos paralisaram e causaram efeitos significativos à rotina do trânsito das duas cidades e ambas lesaram em diversos níveis algumas necessidades individuais de muitos cidadãos. Então volto a perguntar: porque o Estado, a imprensa e a sociedade de uma forma geral apóiam determinadas manifestações públicas e condenam veementemente outras?

Fica evidente o direcionamento dado pelo aparelho do Estado, ideologicamente legitimado pela grande mídia, para as manifestações populares. Ao passo que somos educados e doutrinados a acreditar que qualquer tipo de reivindicação ou pressão popular é uma estratégia de desocupados que põe em risco a ordem social. Em outras palavras, isso quer dizer que só temos direito a cidade quando somos zumbis curtidos em álcool pouco preocupados se naquele instante tem alguém morrendo de fome, subempregado ou vendendo o corpo por algum punhado de moedas em busca da sobrevivência.

É importante deixar claro que não sou contra a copa do mundo e, muito menos, contra esse tipo de manifestação social. Acredito que devemos ocupar as ruas, reconquistar o que é nosso, reivindicar por uma maior dignidade, pelo direito a diversão, pelo direito a democracia, ou seja, pelo pleno direito a cidade!


Ele

sábado, 5 de junho de 2010

Zeitgeist - Parte I: O Filme

É, gente, depois de mais de um mês sem atualizações, eis que surge uma nova postagem. E que não confundam essa "reclusão" com descaso, interesse em expôr nossas idéias não nos falta, mas infelizmente e até certo ponto, também somos vítimas desse sistema que preenche nossos dias com afazeres, responsabilidades e inseguranças e o pouco tempo que nos resta, acabamos por dedicar ao ócio e a outros prazeres mundanos. Já parou pra pensar nisso? O quanto nossas rotinas, muitas vezes, não nos estimulam o pensamento? E se por acaso você pensar, ela ainda tenta lhe impedir de compartilhar suas idéias, tomando-lhe o tempo.

Acho que todo mundo já percebeu que não é lá de muito interesse da máquina-mundo o nosso pensar e a difusão de novas idéias que não auxiliem sua mera reprodução, mas hoje, ou ainda essa semana, vamos ignorar isso e fazer um pouco diferente. Pra isso sugiro que você reserve 2 horas do seu dia, qualquer dia, que seja hoje, amanhã ou ainda depois, mas reserve essas 2 horas para assistir a um filme que vai abrir seus olhos para o maior mecanismo de sustentação de poder no mundo: a manipulação. Ela que atravessou os séculos e nunca foi tão facilmente difundida e assimilada como é hoje. Ela que faz parte das 24 horas, dos 86400 segundos de todos os nossos dias sem que sequer notemos isso durante 1 segundo que seja.

Zeitgest vai falar detalhadamente sobre esse assunto, e concordando ou não com seu conteúdo, ele vai instigá-lo a refletir, a questionar e quando você menos perceber, talvez tenha a incrível sensação de que, até o filme, pode estar tentando te manipular...

Assista o filme na íntegra


Ela

sábado, 24 de abril de 2010

Vale a pena assistir!!!

Aqui vai a dica de um vídeo fantástico exibido no dia 12 de abril de 2010, pela Globo News. É uma entrevista com o geógrafo e professor David Harvey, na qual ele explica alguns dos princípios do capital que ocasionaram a onda de crises pelas quais ainda estamos passando. Não cabe aqui nenhum tipo de explicação acerca dos conteúdos abordados na entrevista, visto a clareza com que o entrevistado expõe suas idéias.

Só uma pequena ressalva: o início da entrevista é um popuco lento, mas vale a pena assistir tudo, do meio para o final é fantástico!


Ele e Ela

terça-feira, 13 de abril de 2010

Duas Histórias, Uma Realidade


CORREIO DO BRASIL
.
25/3/2010 11:14:32
.
Fiscalização multa rede de lojas Marisa por trabalho escravo
.
Por Redação - de São Paulo
.
A costureira ganha R$ 2 por peça!
.
Uma inspeção de rotina de fiscais do Ministério do Trabalho descobriu, na capital paulista, nesta quinta-feira, trabalhadores bolivianos em condições análogas à escravidão em oficinas de costura contratadas pela rede de lojas Marisa. Cada trabalhador recebe R$ 2 por uma peça que será vendida a R$ 49,99 pela empresa. (...) O rastreamento da cadeia produtiva do setor de confecções levou a SRTE a encontrar trabalhadores, em geral bolivianos, sem registro, com salários de R$ 202 a R$ 247, menos da metade do mínimo brasileiro (R$ 510) e menos de um terço do piso da categoria. As condições de trabalho, saúde e segurança também eram inadequadas. De acordo com as investigações dos fiscais do trabalho, dos R$ 49,99 que um cliente da rede de lojas Marisa pague por uma peça, R$ 2 vão para o trabalhador (4%), R$ 2 para o dono da oficina (4%), R$ 17 para os intermediários (34%) e R$ 28,99 (58%) ficam com a Marisa. (...)

Ainda tem gente que acredita que o lucro é apenas uma relação entre custos e venda. A notícia acima é um exemplo claro da subordinação do trabalho (trabalhador imigrante sem quaisquer direitos) ao capital (Marisa) e é dessa relação, estruturalmente desigual, que resulta o grande estandarte de nossa sociedade, o lucro.

Não se trata aqui de fazer uma campanha contra as lojas Marisa. Esta situação não é exclusividade deste grupo empresarial, a precarização das relações de trabalho é algo corrente nos dias de hoje. Quem não conhece alguém que trabalha sem carteira assinada no regime de “associados” (principalmente advogados), que trabalha10, 11h por dia? Ou um professor que dá aula de 5, 6 escolas com 60, 70 horas por semana?

Guardadas as devidas proporções, a grande maioria das pessoas tem boa parte dos frutos do seu trabalho colhidos por terceiros e a cada dia que passa, somos impelidos a trabalhar mais, ganhar menos e levantar as mãos para o céu e agradecer por ter um “bom” emprego. O que torna essa relação mais complexa é que existem diferentes níveis de subordinação capital/trabalho. O nível de remuneração dada ao trabalhador é diretamente proporcional aos lucros gerados por ele, ou seja, um arquiteto que vira noites fazendo um projeto de um edifício de luxo que irá gerar muitos milhões para a construtora irá ganhar muito mais do que um pedreiro que é apenas um executor de funções facilmente substituído.

Essa divisão social do trabalho (extremamente complexa) é a semente de uma divisão segregacionista do espaço urbano. Uma sociedade estruturalmente desigual gera espaços a sua imagem e semelhança. As melhores áreas são reservadas a um pequeno grupo de pessoas que pode pagar por elas e o Estado, em todas as esferas de governança, segue com a função de provedor de infra-estrutura a fim de perpetuar a valorização da área. Para a grande massa de menos favorecidos, resta espaços degradados, mal servidos de aparelhos públicos e muitas vezes carentes de dignidade.

Acredito que é na complexidade da divisão social do trabalho, que diferencia aqueles que detem o capital daqueles que interessam ao capital e do grande número de marginais ignorados pelo mesmo, que reside a dificuldade de nos reconhecer enquanto um mesmo grupo, criarmos uma identidade de trabalhadores e, por fim (aonde quero chegar), reconhecer que a tragédia do Morro do Bumba é consequência dessa divisão social do trabalho da qual fazemos parte.


Geralmente, diante de tal acontecimento, somos quase que automaticamente impelidos a culpar sucessivos governos por sua irresponsabilidade e descaso. Refletindo com maior rigor crítico penso que é totalmente compreensível tais “atitudes governamentais”, visto que o Estado não é regido (de forma alguma) por valores de igualdade, justiça e cidadania. Ele é movido por pressões sociais, sendo uma espécie de balança pendendo sempre para o lado onde a força é exercida com maior vigor. Então quem é o culpado? A culpa está na estrutura da nossa sociedade que está por traz de governos, relações sociais e de trabalho. Parece fácil colocar a culpa em algo quase que metafísico como a “sociedade”, mas quem constrói a “sociedade”? Somos nós.

Nós que assistimos o crescimento das favelas, da violência e da pobreza e somos incapazes de nos colocar no lugar daqueles que vivem com dificuldades. Nós, que somos atores coadjuvantes na cena pública desse país e acreditamos que por uma ordem divina as coisas podem melhorar.

Sendo assim, pensar na tragédia do Morro do Bumba é enxergar além das desocupações de áreas de risco. É urgente pensarmos que tipo de sociedade queremos. É essa em que pessoas são exploradas ao limite e tem como recompensa o “justo” descanso em casas construídas em cima de lixões?


Ele